Tudo Que Há Pra Viver

Vista aérea da Praia de Punta Carretas e Pocitos Montevideu Uruguai

Estrangeiros.

Chegamos.
Nunca fui ao Uruguai. Nunca pensei em ir ao Uruguai…mas estando lá, foi uma descoberta não só de um lugar novo, mas de novas sensações: estávamos morando em um outro país.
Uma sensação de medo infinita e uma curiosidade maior ainda.
Passamos muito tempo no aeroporto…descobrindo e calculando troca de moeda, chip de telefone, maneira barata de chegar em casa. Casa. Ali o conceito de casa tinha mudado, mas de verdade mesmo, desde o início sempre soube que a minha verdadeira era sempre voltando pro Brasil. Ainda que naquele momento não tivéssemos mais endereço fixo.
Já tínhamos vivido nômades por 4 meses no Brasil como teste, antes de sair para o “estrangeiro”. Agora os estrangeiros éramos nós.
É meio estranho chegar como morador em outro país. Já tinha mudado de Estado algumas vezes no Brasil, e temos nossas regionalidades, mas em outro país, parece que é bem diferente. No final, são ideias que alimentamos, de certas “unidades culturais” formais, que jamais estão acima da conexão humana inexplicável e espontânea e completamente informal. Mas de cara o Uruguai não foi o lugar que mais me identifiquei ao chamar de “casa.”
Que lugar organizado! E monótono! hahahaha! Uma tranquilidade o tempo inteiro, os parques com feiras que vendiam desde roupas de frio a produtos de limpeza, peixe e legumes. Nada lotado. No chão, apenas muitas folhas de um outono que se fazia muito presente com o arzinho sempre frio que se misturava à brisa do rio-mar Uruguai.
As ruas de Punta Carretas pareciam um balé de figurantes de um filme…tudo tão calmo e sincronizado…Moramos numa pequena vila de mini-casas geminadas… E era um horror de sujeira essa casa… foi meio traumatizante pra uma primeira estadia como nômade fora do seu país… Mas o bairro em si era um charme…caminhávamos até as Ramblas…a praia… e íamos correndo até Pocitos, a “Copacabana” de Montevidéu… Não sei porque não ouvia falar muito do Uruguai como turismo entre os brasileiros (à exceção dos brasileiros do sul do país, pela proximidade), mas estando lá, foi dando vontade de conhecer cada vez mais aquele lugar tão perto e tão distante. O Uruguai é um país caro e com índices de desigualdade muito mais baixos que o Brasil. Tem uma classe média grande, média de salários alta, é organizado e pouco violento… Ficamos o tempo todo pensando em como ele podia ser tudo isso, o que deveríamos fazer no nosso país para chegar nesse ponto…Mas ao mesmo tempo com uma saudade dos barulhos do Brasil rsss.
Acabamos descobrindo que alguns problemas deles eram semelhante a alguns dos nossos. E em alguns casos até piores. Lá também houve um tal genocídio dos povos originários que até poucos anos atrás sequer se reconhecia que havia pessoas indígenas no país! Essa fala, inclusive, sempre me incomodou muito: “somos um país sem indígenas.” Assustador e forte, mas muito atual na mentalidade de muitos uruguaios.
A segregação pela cor da pele e origem, ou como convencionou-se chamar, “racial”, também é uma realidade. Voltando de ônibus um dia vi uma passageira lendo e rindo de uma “piada” racista no celular. E a mesma situação de dizer que “quase não tem negros aqui”, como no caso indígena…
Curioso pensarmos no tal desenvolvimento econômico desatrelado de valores éticos e de convivência e respeito humano. Nós com o Uruguai, o Uruguai conosco. Todos com todos.

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